Pedro ou Pêro da Covilhã
1450 -
1530foi um
diplomata e
explorador português. Com cerca de 18 anos cativa um espanhol que visitava a
Covilhã para comprar tecidos que o convida a servir o seu amo,
D. Juan de Guzman, irmão do
Duque de Medina-Sidónia, um dos mais conceituados
fidalgos de
Sevilha; Pêro aceita a proposta e parte para Sevilha onde lhe é atribuído o papel de espadachim. Impressionado com a desenvoltura de Pêro de Covilhã, convida-o D. Juan de Gusman a participar nas embarcações do seu irmão, o Duque conhecido também como o Pirata Espanhol; Pêro recusa a oferta e, em
1474, acompanha D. Juan a
Lisboa a uma entrevista com
Afonso V de Portugal.
D. Afonso simpatiza com Pêro também pelo seu domínio de línguas, nomeadamente a
língua árabe e D. Juan cede a el-rei os serviços do português. É assim que Pêro da Covilhã, aos seus 24 anos, é admitido como moço de esporas de D. Afonso V. Passado pouco tempo, decide el-rei elevá-lo a
escudeiro, com direito a armas e cavalo.
Em
1476 acompanha D. Afonso V na
batalha de Toro, a tentativa fracassada de D. João de reclamar o trono de
Castela, já que era cunhado de
Henrique IV de Castela. Mais tarde, em iria acompanhar D. Afonso na jornada a
França para pedir auxílio ao rei
Luís XI de França na luta pelo trono de Castela, que seria rejeitado. Entretanto, D. Afonso abdica do trono, para
D. João II.
Após a execução do
Duque de Bragança pelas próprias mãos do rei, Pêro da Covilhã foi designado para investigar quais os nobres que conspiravam contra D. João II, conseguindo identificar o
D. Diogo,
duque de Viseu e D.
Garcia de Meneses,
bispo de Évora.
Na sequência do desejo de el-rei continuar a obra iniciada pelo
infante D. Henrique dos
Descobrimentos, escolhe novamente Pêro da Covilhã para embaixador nos tratados de paz com os
berberes do
Magrebe (como o
rei de Fez e o
de Tremecém), que convinham ao reino para convergir os esforços na odisseia marítima.
Pêro da Covilhã torna-se, entretanto, escudeiro da guarda real e casa com Catarina que em poucos meses engravida.
Mais tarde, em
1487, D. João II envia-o juntamente com
Afonso de Paiva em busca de notícias do mítico reino do
Preste João e da
Índia; disfarçados de mercadores e treinados por cosmógrafos régios e pelo rabino de
Beja que lhes terá indicado as portas da cidadela, no
Cairo, partem a cavalo a
7 de Maio de
Santarém (onde estava a
Corte), rumo a
Valência. Atravessam o sul da
Península Ibérica até
Barcelona, onde chegam a
14 de Junho. Daí, uma
nau os levou até
Nápoles em dez dias e, daqui até ao
arquipélago grego em outros dez dias. Desembarcam na ilha de
Rodes, que pertencia à
Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, repousando em casa de frades portugueses.
Rodes seria a última terra cristã que pisariam. Daí, rumaram para
Alexandria, no
Egipto, terra de infiéis, onde compraram algumas mercadorias para o seu disfarce de mercadores. Depressa adoeceram com as chamadas "
febres do Nilo", quase morrendo. O Naib, lugar-tenente do
Sultão, toma-lhes as mercadorias dando-os por mortos e sem descendentes. Porém, ambos recuperam e o Naib restitui-lhes o valor das mercadorias. A partir daí tentam reproduzir o trajecto das
especiarias no sentido oposto: rumo a
Roseta de cavalo e de barco ao
Cairo. Juntam-se a uma
caravana que, percorrendo o deserto pela margem oriental do
Mar Vermelho, vai cruzar a
Arábia, rumo a
Adem, às portas do
Mar Índico; passam por
Suez,
Tor, o deserto do
Sinai,
Medina e
Meca, a cidade sagrada do
Islão, onde tiveram que fazer penitência e rezar ao profeta
Maomé, para manter o disfarce.
Chegam a Adem já no ano de
1488 e aí se separam com reencontro combinado no
Cairo, junto à porta da cidadela, durante o anoitecer de um dos primeiros noventa dias de
1491;
Afonso de Paiva ruma à
Etiópia em busca do
Preste João, e Pêro da Covilhã vai para a Índia.
Pêro chega Novembro de
1488 a
Calecute, um dos pequenos reinos da
Índia actual. Aí terá conhecido um mercador que lhe terá explicado o percurso das especiarias; terá indicado a existência do
Ceilão, de onde vinha a
canela, e da
Malásia, a
noz-moscada, e o papel de Calecute em todo o processo: era aqui que afluíam as especiarias, prontas para embarcar rumo ao Mar Vermelho (e, posteriormente, para
Veneza).
Na sede de melhor saber, Pêro visita
Cananor,
Goa e
Ormuz, na costa do
Malabar, confirmando que o movimento comercial era, de facto, inferior ao de Calecute.
Em Dezembro de
1489 parte Pêro da Covilhã de Ormuz rumo à costa oriental de
África. Visita
Melinde,
Quiloa,
Moçambique e, finalmente,
Sofala, registando os entrepostos comerciais dos mouros. Pêro da Covilhã regista, assim, que uma vez dobrado o fim da África (mais tarde designado do
Cabo das Tormentas), bastará atingir Sofala ou Melinde e facilmente se alcançará Calecute. Será com base nesta anotação que
Vasco da Gama decidirá atravessar o
Oceano Índico directamente para Calecute, na sua
pioneira expedição marítima à Índia.
A
30 de Janeiro de
1491, Pêro da Covilhã dirige-se às portas da cidadela do
Cairo, conforme combinado e, em vez de Afonso de Paiva, encontra o Rabi Abrahão (o rabino de Beja) e um outro judeu português, José de Lamego, que lhes comunicam que Afonso de Paiva teria falecido ali no princípio do mês, mas que falecera de
peste sem poder contar as suas viagens ou aventuras, da notícia do nascimento do seu filho, que Catarina baptizou de Afonso, em homenagem ao rei, e do feito de
Bartolomeu Dias, que tinha dobrado o
Cabo das Tormentas, agora designado Cabo da Boa Esperança. Mas el-rei D. João II teria pedido ao Rabi Abrahão que fosse confirmar a importância de Ormuz, segundo relatos de José Lamego, que desconhecia que importante era Calecute, e não Ormuz.
Assim, Pêro redige o relatório para o rei, que seria entregue por José Lamego, e parte para Ormuz com o Rabi. Aí, Pêro da Covilhã deixa o Rabi e regressa a Adem, para saber notícias do
Preste João, já que Afonso de Paiva não as pôde comunicar. Daí toma um barco até
Zeila, mas a sul, já na costa da
Etiópia.
Rico e bem acolhido pelo
imperador Alexandre, descendente do
Preste João, ali casou e teve filhos, vindo a morrer muitos anos depois. Constatou que afinal o mítico reino não era mais senão um pobre povo que tentava evitar ser esmagado pelos vizinhos muçulmanos — não poderia valer
Portugal de qualquer ajuda, mas sim eles que teriam que ser ajudados na luta contra os infiéis.
Impedindo de sair por
Nahu, irmão e sucessor de Alexandre, que entretanto morrera inesperadamente, e que alegava o costume de não deixar sair os forasteiros que entrem no reino, recebe terras do soberano e aí se fixa como senhor feudal, casando novamente e de quem teria numerosa descendência.
Com a morte de Nahu, em
1508, Pêro da Covilhã é mantido como conselheiro régio da nova
rainha Helena. É por sua indicação que a rainha envia o embaixador Mateus a Lisboa, acompanhando dois frades portugueses que ali apareceram, e de quem viria Pêro da Covilhã a saber da morte de D. João II, da ascensão de
D. Manuel I, e dos sucessos de
Vasco da Gama e
Pedro Álvares Cabral.
Recebeu, entretanto, a visita de alguns portugueses a quem terá dado notícias importantes. É, em
1521, encontrado pelo embaixador
D. Rodrigo de Lima. O relato das suas viagens foi enviado ao padre
Francisco Álvares pelo próprio Pêro da Covilhã, que o publicou na
Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias, que veio a ser editada em
Lisboa, em
1540.
Joana Bento